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  • Produtos florestais não madeireiros mostram que é possível aliar desenvolvimento e conservação

    Jornal da USP 23/06/2026. Texto: Sthephany Oliveira. Arte: Livia Bortoletto

    Duas pessoas usando luvas e toucas selecionam castanhas sobre uma mesa de triagem em um ambiente de processamento de alimentos.

    Em 1997, fundos de programa de redução do desmatamento foram canalizados pelo Ministério do Meio Ambiente e investidos em São Francisco do Iratapuru para expandir a agroindústria a partir da produção de biscoitos de castanha-do-pará – Foto: Tomas Rosenfeld

    Com dados de 20 anos de intervenções que pretendiam promover a economia voltada aos produtos florestais não madeireiros, uma análise mostrou o desenvolvimento local de uma pequena comunidade extrativista no Norte do Brasil. O estudo, conduzido por pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, mostrou em São Francisco do Iratapuru, no Amapá, a redução da desigualdade, o acesso ampliado a bens domésticos, de consumo e aos serviços públicos, além do aumento da renda acima da inflação. Tudo isso enquanto a floresta foi mantida de pé.

    Os Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) são todos aqueles que podem ser extraídos da floresta, desconsiderando a madeira: óleos, frutos, sementes, folhas, raízes, cascas, resinas e até alguns que não são vegetais, como o pirarucu. De acordo com Tomas Rosenfeld, autor do estudo, os principais no Brasil são o açaí, a castanha e o cacau. Apesar de serem usados na alimentação, eles também podem ser matéria-prima de itens medicinais ou cosméticos, por exemplo.

    Conforme explica o pesquisador, na bioeconomia – ciência que busca entender a relação entre as atividades econômicas e os ecossistemas – eles são conhecidos como produtos da sociobiodiversidade, ou seja, que surgem a partir da interconexão entre a diversidade biológica e a diversidade sociocultural de regiões tradicionais. A prática considera a valorização do conhecimento ancestral humano, alinhada ao potencial econômico e à preservação ambiental.

    Retrato de um homem jovem de cabelos castanho-escuros ondulados usando camisa azul e blazer. Olha para a câmera com leve sorriso, diante de um fundo vegetal desfocado.
    Tomas Rosenfeld – Foto: Arquivo pessoal

    A lógica desse sistema é que não é necessário remover a árvore inteira para coletar os produtos comercializáveis, como a castanha ou o coco. A dinâmica é sustentável porque as pessoas permanecem no local e cuidam da floresta, que, se fosse derrubada, comprometeria a fonte de renda local.

    Bioeconomia da sociobiodiversidade

    Rio de águas calmas cercado por vegetação, com pequenas embarcações de madeira atracadas junto a um píer simples de madeira.

    A vila de São Francisco do Iratapuru está localizada na Amazônia oriental brasileira, no sul do Estado do Amapá, e é uma região amplamente coberta pela floresta amazônica. O estado se destaca por ter a maior porcentagem (73%) de áreas protegidas no Brasil, incluindo unidades de conservação ambiental, terras indígenas e territórios ocupados por remanescentes de comunidades quilombolas – Foto: Tomas Rosenfeld

    De acordo com Tomas Rosenfeld, foi a partir do final dos anos 1980 que os estudos em bioeconomia da sociobiodiversidade começaram a despontar no mundo. “Naquele momento, isso foi uma inovação, uma vez que antes disso era comum pensar que o único jeito de se obter renda e desenvolvimento a partir da floresta seria derrubá-la. A partir desse período, houve as primeiras iniciativas para conciliar a preservação do meio ambiente com o desenvolvimento humano”, explica.

    Na Amazônia brasileira, ações que investiram no desenvolvimento local baseado nos produtos não madeireiros foram crescendo a partir dos anos 1990. Mesmo assim, as evidências sobre resultados das iniciativas que endereçam todas as dimensões da sustentabilidade ainda são escassas. O estudo teve o objetivo de preencher essa lacuna e avaliar a melhoria na qualidade de vida das quase 50 famílias que hoje compõem a comunidade estudada.

    “Olhar para o Brasil com metade do território tomado pelo bioma amazônico é o ponto de partida para pensar nos grandes desafios do País. Há décadas, isso me levou a priorizar os estudos da Amazônia. A partir daí, surgiram oportunidades de organizar um projeto em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia. Hoje, o nosso grupo trabalha com o que chamamos de bioeconomia de gente e de conservação da natureza”, afirma o professor da FEA Jacques Marcovitch, que orientou o trabalho Local development based on non-timber forest products: Revisiting the case of São Francisco do Iratapuru in the Brazilian Amazon.

    Retrato de homem de cabelos brancos usando terno. Olha para a câmera com leve sorriso, diante de um fundo escuro.
    Jacques Marcovitch – Foto: Pbelasco / Wikimedia Commons

    A convivência e atenção aos diversos aspectos que compõem a vida das comunidades locais também foi uma preocupação na abordagem dos pesquisadores. “Toda vez que a gente vai para essa região, as comunidades nos perguntam: ‘Vocês vieram para escrever um artigo, publicar e nos esquecer?’. Pois essa é a relação que se criou entre a academia e as populações locais. Mas, no nosso projeto, convivemos e procuramos entender essas comunidades para além dos objetivos de pesquisa”, afirma Marcovitch.

    Floresta em pé e dinheiro no bolso

    O estudo considerou os resultados da intervenção econômica olhando para os papéis dos principais atores sociais envolvidos, como instituições públicas e privadas e indivíduos.

    Sobre os resultados, Rosenfeld explica que, ao longo dos últimos 20 anos, o nível de renda das famílias cresceu acima da inflação, enquanto os índices de desigualdade caíram, o que significa que há menos desigualdade de renda dentro da comunidade. Aliado a isso, a cobertura florestal na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru (RDSI) permaneceu inalterada (99,99% do território preservado em 2021). O município vizinho de Laranjal do Jari apresenta resultados semelhantes (cobertura florestal de 99,73%), mas com um desmatamento significativo de 5 km² em 2010.

    Trabalhadores em um galpão industrial manuseiam sacos de material e abastecem uma máquina de processamento de grande porte.

    Os resultados da pesquisa mostram uma melhoria substancial na qualidade de vida dos habitantes de São Francisco do Iratapuru em termos de renda e acesso a bens e serviços, sem aumento da desigualdade de renda e com desmatamento zero – Foto: Tomas Rosenfeld

    Um dos desafios do estudo foi traçar as estratégias de intervenção no local que levaram aos três resultados: aumento de renda, redução de desigualdade e conservação florestal.

    Tomas Rosenfeld conta que uma delas foi o investimento em infraestrutura produtiva. “Essa infraestrutura foi possibilitada pelos empréstimos e subsídios de diversos parceiros, como bancos, empresas e o próprio governo do estado, que doou recursos. E ganhou forma com a implementação de fábricas para processamento da castanha e com a capacitação das pessoas, que ampliaram seu conhecimento em torno da produção e do beneficiamento. Essa primeira estratégia foi investimento em infraestrutura produtiva, física e humana”, afirma.

    Outra forma de intervenção foi a compra garantida, que consiste num acordo entre o governo ou uma empresa e as famílias locais: os órgãos garantem a compra dos produtos florestais que a comunidade produz. “Isso foi fundamental, porque trouxe estabilidade para as pessoas. Elas sabem que vão vender, inclusive, por um preço melhor, porque esse é um dos desafios. A compra garantida, além da estabilidade, garante um valor mais justo para os produtores”, explica o pesquisador.

    Por fim, outra estratégia que se mostrou importante foi o desenvolvimento de um sistema de governança local, isto é, a comunidade foi “amadurecendo” a sua própria organização e gestão. “Eles criaram organizações locais, como uma cooperativa e uma associação. Um dos resultados foi o estabelecimento de cotas para venda: eles garantem que todo mundo consiga vender pelo menos uma parte da sua produção por meio da compra garantida, por exemplo. Esse provavelmente é um dos fatores que colaboraram para a redução da desigualdade. Tudo isso gerou maior valor agregado e o preço por unidade da produção foi maior. Houve aumento da produtividade com alta contribuição dos produtos florestais”, relata. Enquanto isso, a floresta teve sua cobertura praticamente intocada.

    Close em castanhas sobre uma mesa de triagem com mãos de trabalhadores que selecionam os produtos.

    A castanha-do-pará sempre teve grande importância para as comunidades extrativistas, que desenvolveram diversas formas de aproveitá-la. Além do consumo in natura, era transformada em leite de castanha, usado em mingaus e ensopados, paçoca, consumida com café, e biscoitos, preparados com castanhas moídas. Um dos aspectos mais interessantes foi a iniciativa da Comaru, que, em 1995, decidiu agregar valor ao produto em vez de vender apenas a castanha bruta e investiu na produção de biscoitos de castanha – Foto: Tomas Rosenfeld

    Jacques Marcovitch conta que uma métrica pessoal de sucesso do seu trabalho estaria na capacidade de convencer mais brasileiros a visitarem a Amazônia, para verem com os próprios olhos a importância do bioma. “Quando você vai para a Amazônia pela primeira vez, é impossível desgrudar os olhos da janela. São quatro horas de voo, saindo de São Paulo até Manaus, e você fica praticamente duas horas vendo um mar de árvores que não acaba mais. Isso causa um deslumbramento, associado a uma enorme sensação de responsabilidade.”

    O estudo contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da fundação alemã Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

    O artigo Local development based on non-timber forest products: Revisiting the case of São Francisco do Iratapuru in the Brazilian Amazon foi publicado na revista Ecological Economics e pode ser acessado neste link.

    Mais informações: tomasrosenfeld1@gmail.com , com Tomas Rosenfeld.

  • Avaliação Colaborativa FEA-USP/COBIO do Programa Cadeias Produtivas da Bioeconomia, Atualização 2026

    Avaliação Colaborativa FEA-USP/COBIO do Programa Cadeias Produtivas da Bioeconomia, Atualização 2026

    No dia 11 de maio, durante a abertura do I Seminário de Apresentação e Integração dos Projetos aprovados pelos editais do Programa Cadeias Produtivas da Bioeconomia (PCPBio/MCTI), o professor Jacques Marcovitch apresentou uma iniciativa fundamental para o setor: o projeto de Avaliação Colaborativa FEA-USP/COBIO-MCTI. A iniciativa, apoiada pela FAPESP foca no aprimoramento de políticas públicas e na mensuração de impactos socioambientais. De acordo com Marcovitch, trata-se de um recurso essencial para promover o fortalecimento das cadeias produtivas sustentáveis no Brasil.

    O projeto, vinculado ao Programa de Pesquisa em Políticas Públicas da Fapesp (PPPP Fapesp 24/15303-3), tem como objetivo central analisar os impactos do Programa Cadeias Produtivas da Bioeconomia. Esta cooperação técnica e científica entre a FEA/USP e a Coordenação-Geral de Bioeconomia (COBIO) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) busca fornecer dados e análises robustas para o aprimoramento das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.

    Assista à apresentação completa

    Para conhecer os detalhes da metodologia e os objetivos desta avaliação colaborativa, disponibilizamos o vídeo da apresentação de Jacques Marcovitch

  • Governança e Inovação: Propostas para a Bioeconomia Amazônica

    Os trabalhos a seguir resultam das atividades da disciplina de pós-graduação EAD 5978/2026 — Governança Ambiental: Bioeconomia na Amazônia, ministrada na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP (FEA-USP). Sob a coordenação dos docentes Jacques Marcovitch e Maria Sylvia Saes, a disciplina busca induzir uma análise crítica sobre a gestão dos recursos naturais e construir conhecimentos práticos para aprimorar políticas públicas voltadas à região.

    Os policy briefs elaborados pelos participantes enfrentam gargalos críticos em cadeias da sociobiodiversidade e propõem soluções estruturantes para conciliar conservação florestal com geração de renda e bem-estar social.

    Cacau Silvestre do Vale do Juruá: Fortalecendo a Capilaridade da Bioeconomia

    Autores: Estevão Seccatto Rocha e André Bracciali

    Este estudo analisa a cadeia do cacau nativo nas Reservas Extrativistas (RESEX) do Alto e Médio Juruá, um produto de alta raridade que, apesar de sua viabilidade comercial comprovada, ainda enfrenta fragilidades extremas.

    Os autores identificam uma “ruptura de capilaridade” entre as políticas públicas e as comunidades isoladas, além de uma assimetria onde o extrativista retém menos de 10% do valor final do chocolate. A proposta sugere a criação da figura do Agente Extrativista de Bioeconomia (AEB) — inspirado no modelo dos agentes comunitários de saúde — e a instalação de Centros Comunitários de Beneficiamento (CCBs) com gestão feminina. O objetivo é transformar o apoio governamental de projetos pontuais em uma política de Estado, garantindo renda previsível e segurança alimentar para cerca de 300 famílias.

    Formalização da Meliponicultura: Integrando Regulação Ambiental e Sanitária

    Autoras: Beatriz Alves Leandro e Janaína Alves De Lima

    A meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) é apontada como estratégica para a conservação ambiental e segurança alimentar, mas esbarra em um “vazio regulatório” que impede sua expansão comercial.

    O trabalho destaca o descompasso institucional entre a autorização ambiental (SISFAUNA/IBAMA) e a legalização sanitária (MAPA/SIM), que mantém a maioria dos produtores na informalidade e fora dos mercados formais. Para superar esse entrave, as autoras propõem uma estratégia de formalização escalonada, que inicia na regularização ambiental e avança progressivamente até a obtenção do Selo ARTE, permitindo a comercialização nacional. A política foca na atuação de secretarias municipais e forças-tarefa técnicas para reduzir os custos de transação e incluir jovens e mulheres na cadeia produtiva.

    O Agente Curador: Estratégias para Desbloquear o Financiamento na Amazônia

    Autoras: Naiara Bertão e Beatrice Duran

    Embora existam recursos disponíveis para a sociobioeconomia, como no Fundo Amazônia, o acesso das comunidades locais ao crédito permanece limitado por excesso de burocracia e exigências documentais incompatíveis com a realidade territorial.

    Este policy brief propõe a criação do Agente Curador dentro de instituições financeiras como o BNDES. Diferente dos agentes aglutinadores que atuam na ponta, o curador teria a função proativa de mapear e fortalecer intermediários, traduzir demandas locais para o banco e apoiar a estruturação de dados de impacto. A iniciativa visa reduzir a assimetria de informação, permitindo que os instrumentos financeiros sejam redesenhados para alcançar de forma efetiva os pequenos e nanoprodutores da floresta

  • Bioeconomia e Governança: Encontro na USP sela a integração entre ciência e gestão pública no combate à crise climática

    Ministra Marina Slva é recebida pela coordenadora do projeto Bioeconomia e vice-diretora da Faculdade, Maria Sylvia M. Saes,

    A presença da Ministra Marina Silva na FEA/USP, consolida o papel da universidade como espaço vital para a análise de riscos climáticos e para a construção de estratégias de longo prazo que garantam a sustentabilidade econômica e ambiental do Brasil.

    SÃO PAULO – Encontro realizado no dia 5 de março de 2026 foi marcado pela convergência entre ciência e gestão pública, a Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, apresentou perspectivas otimistas e dados robustos sobre a política ambiental brasileira durante palestra na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA/USP). O evento, realizado em 05 de março, reuniu estudantes, pesquisadores e lideranças acadêmicas para discutir os desafios da governança climática e a transição para uma economia de baixo carbono.

    A ministra foi recepcionada pela diretora da FEA/USP, Maria Dolores Montoya Diaz, e pela vice-diretora da instituição e coordenadora do projeto Bioeconomia na Amazônia, Profa. Dra. Maria Sylvia Macchione Saes, que integrou a mesa de debates ao lado de representantes das entidades estudantis FEA ESG, CAVC e EPEP USP.

    Resultados de uma Política Transversal

    Um dos pontos centrais da fala de Marina Silva foi a atribuição do sucesso no combate à destruição florestal à “política transversal” adotada pela gestão atual. Segundo a ministra, a integração de 13 ministérios em uma estratégia conjunta permitiu previsões históricas: a expectativa para o primeiro semestre de 2026 é que o Brasil celebre a menor taxa de desmatamento desde o início do monitoramento por satélite, em 1985.

    Marina destacou que os esforços já resultaram em uma redução de 50% no desmatamento na Amazônia, 32% no território nacional e mais de 30% no Cerrado. Além disso, a ministra ressaltou a queda de 75% nos índices de incêndios este ano, fruto de uma estratégia de combate que incluiu a decretação de emergência climática e um foco sistêmico em todos os biomas brasileiros.

    Reconstrução Institucional e Bioeconomia

    A ministra detalhou as diretrizes que fundamentam sua gestão, enfatizando que a proteção de um país com as dimensões do Brasil exige controle social e participação ativa da sociedade, extrapolando a capacidade exclusiva dos servidores públicos. Entre os pilares citados estão o fortalecimento do Sistema Nacional do Meio Ambiente e a retomada de conselhos e conferências de participação social, essenciais após o período de desestruturação das políticas ambientais.

    Para o projeto Bioeconomia na Amazônia, um dos destaques da palestra foi a menção à ampliação de instrumentos de financiamento, como programas de pagamento por serviços ambientais e o apoio a comunidades tradicionais. “É melhor remunerar quem protege a floresta do que lidar com os custos da destruição ambiental depois”, afirmou a ministra, alinhando-se à visão do projeto que estuda cadeisa de valor da Bioeconomia.

    O Desafio da Transição Ecológica

    Ao encerrar sua participação, Marina Silva abordou a urgência da transição energética e da economia circular como respostas à emergência climática global. A ministra reforçou que o enfrentamento da crise exige inovação tecnológica e uma cooperação internacional coordenada entre governos, empresas e sociedade civil.

  • Caminhos para o Brasil pós COP 30

    Temos a satisfação de convidar a comunidade acadêmica, pesquisadores e interessados para o painel “Caminhos para o Brasil pós COP 30”, que reunirá pesquisadores e lideranças empresariais para discutir o legado da COP 30 realizada em Belém do Pará e as perspectivas futuras da Convenção do Clima. 

    O encontro foca em iniciativas estruturantes para a sustentabilidade com foco especial no Bioma Amazônia. Expositores Confirmados:

    • Adalberto Val (INPA)
    • Thelma Krug (IPCC)
    • Denis Minev (Bemol)
    • Paulo Artaxo Netto (IFUSP)
    • Jacques Marcovitch (Grupo de Pesquisa Bioeconomia da Amazônia)

    Informações do Seminário

    • Data: 24 de fevereiro de 2026 (terça-feira)
    • Horário: das 14h às 16h
    • Local: Auditório FUNCADI – Biblioteca da FEA/USP
    • Inscrições: Até 23 de fevereiro por meio deste formulário

    Links e Contatos

    Sua participação é aguardada para construirmos uma agenda de prioridades relativa à CND/Brasil.

  • Oportunidades de Bolsa: Projeto MCTI-FEA/USP em Bioeconomia

    A Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA/USP), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), anuncia a abertura de processos seletivos para bolsas de pesquisa financiadas pela FAPESP . As vagas integram o projeto “Avaliação Colaborativa do Programa Cadeias Produtivas da Bioeconomia do MCTI e seus impactos”, sob a supervisão dos professores Jacques Marcovitch e Maria Sylvia M. Saes.

    O objetivo central da pesquisa é avaliar como os projetos do Programa Cadeias Produtivas da Bioeconomia do MCTI (PCPBio/MCTI) impactam o desenvolvimento sustentável e a inovação em cadeias de valor selecionadas.

    Sobre as Vagas

    Estão abertas até 10 vagas distribuídas em três editais específicos, de acordo com o nível de formação e experiência:

    • Iniciação Científica (IC): Destinada a estudantes de graduação em Economia, Administração, Engenharias e áreas correlatas com sede em São Paulo. São 05 vagas com dedicação de 12 horas semanais.
    • Treinamento Técnico IV-A (TT-IV-A) – Cadeias de Valor: Voltada para profissionais com graduação completa e mestrado concluído (ou doutorado em andamento/concluído) em áreas relacionadas à avaliação de políticas públicas e bioeconomia. São 04 vagas com dedicação de 40 horas semanais.
    • Treinamento Técnico V (TT-V) – Metodologia: Exige mestrado concluído ou doutorado em áreas como estatística aplicada, economia ou gestão socioambiental, com domínio de ferramentas como R, Stata ou Python. Há 01 vaga disponível com dedicação de 40 horas semanais.

    Todas as bolsas têm duração prevista de 12 meses, com possibilidade de prorrogação, e não permitem vínculo empregatício concomitante.

    Datas Críticas e Cronograma

    Os interessados devem ficar atentos aos prazos estabelecidos nos editais:

    • Prazo Final de Submissão: até 02 de março de 2026.
    • Publicação do Resultado: 16 de março de 2026.
    • Formalização junto à FAPESP: 30 de março de 2026.
    • Início previsto da bolsa: 06 de abril de 2026.

    Como se Inscrever

    As inscrições devem ser realizadas exclusivamente por meio do preenchimento do Formulário:

    https://forms.gle/esfP9CFu4uwEpN7d8.

    No ato da inscrição, o candidato deverá anexar obrigatoriamente:

    1. Súmula Curricular atualizada no modelo FAPESP.
    2. Histórico Escolar completo.

    O processo de seleção consistirá em análise qualitativa dos documentos, entrevista com os pré-selecionados e deliberação final por uma comissão avaliadora. Para mais informações sobre o projeto, acesse o site oficial da Bioeconomia FEA/USP.

  • Disciplina concentrada EAD-5978/2026 Governança Ambiental: Bioeconomia na Amazônia

    EAD-5978/2026 Governança Ambiental: Bioeconomia na Amazônia

    Coordenação: Prof. Dr. Jacques Marcovitch & Profa. Dra. Maria Sylvia Saes

    A governança ambiental é o meio pelo qual são determinadas prioridades para mobilizar recursos, atingir metas, gerar resultados e disseminar impactos relacionados ao bem estar humano e a conservação da natureza.

    Avaliação da disciplina

    Abordagem da disciplina

    Estudo da evolução do conhecimento existente sobre a bioeconomia inclusiva e suas perspectivas

    Conhecer e aplicar a metodologia de análise de cadeias de valor na bioeconomia com foco na geração de emprego, renda e de bem-estar das comunidades produtoras

    Quando e onde 

    Datas: de 24/02 a 27/02/2026, presencialmente na FEA-USP em São Paulo. Horário: Das 08h30 às 12h30 & das 14h00 às 18h30

    Programa completo da disciplina

    https://www.fea.usp.br/administracao/pos-graduacao-academica/estrutura-curricular-e-disciplinas/disciplinas/disciplinas?area=12139&disc=EAD5978

  • Amazônia Oculta: Conhecimento estratificado para entender a fauna de insetos da Amazônia

    A Amazônia é frequentemente comparada a um “grande edifício”, mas cientistas tradicionalmente focavam apenas no “térreo”, ignorando os andares superiores. A fauna de insetos que vive na copa das árvores é composta por verdadeiros desconhecidos dos cientistas, e essa fauna é muito diferente daquela que habita a área explorada com mais facilidade pelo homem no nível do solo.

    Descubra o que mora lá em cima!

    Os mega-projetos de pesquisa Bioinsecta e Biodossel Amazônia, conduzidos pela USP e pelo INPA, assumiram a tarefa de identificar e descrever essa imensa diversidade de insetos em suas várias alturas.

    O trabalho é marcado por inovação e desafios pelo ineditismo da abordagem.

    Coleta Estratificada: Os pesquisadores utilizam metodologias inéditas, incluindo a coleta em vários níveis da floresta (solo, 8, 16, 24 e 32 metros), e a invenção de uma “cascata de armadilhas” com redes, pendurada em árvores emergentes que podem alcançar 50 a 60 metros de altura.

    Sequenciamento de Ponta: Está sendo mobilizado muito conhecimento e tecnologia no campo da genética. O projeto visa sequenciar um trechinho do DNA de algumas centenas de milhares de exemplares de insetos, utilizando a metodologia de sequenciamento de próxima geração (dados maciços). A meta é processar cerca de 320.000 bichos sequenciados.

    Resultados Inéditos: Os resultados desse trabalho serão inéditos na literatura mundial e terão um impacto muito importante na nossa compreensão das florestas tropicais.

    Este esforço fundamental de conhecer a “imensidão verde” da Amazônia é crucial para a sustentabilidade. Apresentar a biodiversidade e sua importância para o mundo é o primeiro passo para fortalecer as ações de conservação. O que os pesquisadores querem no final é manter a floresta de pé e garantir o uso correto e sustentável desse patrimônio.

    Assista ao vídeo “Amazônia Oculta” e acompanhe os cientistas “mergulhando e subindo escadas” na floresta para revelar o conhecimento vital para o futuro da Bioeconomia e da vida na Terra.

  • Vozes da Bioeconomia Amazônica: Um Agradecimento às Comunidades e Atores das Cadeias de Valor da Amazônia

    Vozes da Bioeconomia Amazônica: Um Agradecimento às Comunidades e Atores das Cadeias de Valor da Amazônia

    Este texto é uma forma de devolutiva e, acima de tudo, um profundo agradecimento a todas as comunidades, produtores, extrativistas, pescadoras e especialistas que generosamente compartilharam seus conhecimentos, histórias e desafios conosco. A pesquisa sobre a bioeconomia na Amazônia, realizada pela FEA-USP e pelo INPA, com o apoio fundamental do CNPq e da Fapesp, só se tornou possível graças a essa colaboração direta e transparente.

    Quando pensamos na Amazônia, nossa mente tende a gravitar em torno de imagens grandiosas e, muitas vezes, polarizadas. De um lado, a visão de uma natureza intocada, um santuário de biodiversidade. Do outro, as manchetes alarmantes sobre desmatamento e conflitos. Ambas as visões, embora contenham elementos de verdade, ocultam a complexidade pulsante que existe entre esses extremos.

    Por trás de produtos que hoje encontramos em gôndolas de supermercados do mundo todo — como o açaí, o cacau e os peixes de sabor único — existem cadeias de valor repletas de histórias humanas, desafios inesperados e soluções inovadoras que nascem do conhecimento tradicional. Essas cadeias não são linhas retas e anônimas; são redes tecidas por pessoas cujas vidas, saberes e desafios estão intrinsecamente ligados à floresta.

    Este artigo se afasta dos rótulos e mergulha nessas narrativas. Extraídas diretamente das vozes de quem vive e trabalha na Amazônia, estas são cinco realidades surpreendentes da bioeconomia regional que vão desafiar e, talvez, transformar a sua percepção sobre o futuro da floresta.

    A colheita de açaí é a atividade extrativista mais perigosa da Amazônia

    Na Comunidade Quilombola de Guajará-Miri, Joelson Cunha e Samuel Galiza Monteiro nos contaram sobre a transição de sua comunidade, que antes vivia da roça e da produção de carvão, para o açaí como principal fonte de renda e pilar de sua identidade.

    A imagem global do açaí é a de um superalimento roxo vibrante, sinônimo de saúde, bem-estar e energia. Mas por trás de cada tigela servida em um café urbano, há uma realidade invisível e arriscada. Para os extrativistas familiares, a colheita do fruto, conhecida como “peconha”, é a atividade mais perigosa da floresta. O trabalho exige escalar açaizeiros de dezenas de metros, até 30 vezes por dia, usando apenas a força do corpo e uma tira amarrada aos pés. É um esforço tão extremo que o corpo precisa ser condicionado desde a infância para suportá-lo, e impossível de ser feito no calor do sol, quando o tronco queima a pele.

    Os perigos são normalizados: quedas graves, cortes profundos de terçado e o desgaste físico constante. O risco é tão onipresente que as cicatrizes se tornam uma marca da profissão. Em um estudo para o Tribunal Regional do Trabalho, o sociólogo Manuel Potiguar, do Instituto Pabiru, ouviu uma frase que resume a brutalidade dessa rotina:

    “Não existe quem não tenha sofrido acidente, não tem quem não tenha cicatriz que trabalha na cadeia do açaí.”

    Essa frase contundente revela o abismo entre a estética da saúde vendida pelo mercado e o custo físico pago por quem está na base da cadeia. O vigor associado ao açaí contrasta diretamente com os perigos enfrentados por aqueles que o colhem.

    2. Existe uma escola na Amazônia onde o calendário letivo segue a safra da castanha

    Na Comunidade São Francisco de Iratapuru, em Laranjal do Jari/AP, encontramos Maria José. Presidente da associação Bio Rio, sócia da cooperativa Comaru e mãe, ela também está cursando Pedagogia, um detalhe que ilumina sua luta pela transmissão do conhecimento. Sua história reflete a força da organização comunitária: a união das famílias, articulada em torno da cooperativa Comaru e da associação Bio Rio, foi crucial para superar desafios, como a reconstrução da fábrica de beneficiamento após um incêndio, e para estabelecer parcerias duradouras, como o contrato com a Natura.

    Enquanto os riscos da colheita do açaí permanecem em grande parte invisíveis, outras comunidades estão ativamente remodelando sistemas públicos para refletir suas realidades. Na comunidade de Iratapuru, no Amapá, a educação não se desconecta da floresta; ela se adapta aos seus ciclos. Lá, o calendário escolar é modificado para se alinhar à safra da castanha-do-pará, principal fonte de renda e pilar cultural da comunidade.

    Durante o período de colheita, as aulas são ajustadas — naquele ano, por exemplo, as férias ocorreram de 5 de abril a 7 de maio — para que as famílias possam ir aos castanhais. O objetivo não é o trabalho infantil, mas a transmissão cultural. A mudança foi solicitada pelos próprios pais para que as crianças possam “conhecer a nossa tradição”. Elas aprendem sobre o trabalho que sustenta a comunidade, desde a coleta do ouriço até os perigos inerentes à atividade, como a “subida nas cachoeiras”, uma navegação arriscada que exige canoeiros profissionais.

    Essa adaptação é uma demonstração poderosa de como as políticas públicas podem respeitar e integrar os saberes locais, em vez de impor um modelo externo. É o reconhecimento de que a floresta também é uma sala de aula, essencial para a transmissão de uma herança que garante a sobrevivência tanto das pessoas quanto do ecossistema.

    3. As abelhas sem ferrão são mais valiosas pela polinização do que pelo mel

    Da adaptação de um sistema inteiro como uma escola, passamos para uma inovação que acontece no quintal de casa, mas com um impacto igualmente transformador. A meliponicultura, criação de abelhas nativas sem ferrão, vai muito além da produção de mel. Embora seu mel seja valorizado, o principal benefício para o agricultor é um serviço ecossistêmico invisível: a polinização.

    Essas abelhas são polinizadoras eficientes de culturas de alto valor, como o próprio açaí e o cacau, aumentando a produtividade das plantações e, consequentemente, a renda do produtor. Diferente da apicultura tradicional, a criação é segura e acessível, podendo ser feita ao lado de casa por mulheres e crianças. A relação é tão simbiótica que é descrita de forma poética:

    “As abelhas adoçam a vida dele para ele poder produzir em uma outra cultura.”

    Vista também como uma terapia, a meliponicultura representa um modelo de negócio em que o valor não está apenas no produto extraído, mas no serviço que fortalece todo o sistema produtivo, ajudando a manter a “floresta em pé”.

    Mulheres pescadoras estão quebrando tabus no manejo do pirarucu

    Assim como a polinização revela o valor oculto das abelhas, um número crescente de mulheres está tornando visível seu papel fundamental em uma das atividades mais emblemáticas da Amazônia. O manejo do pirarucu, o gigante dos rios, é tradicionalmente masculino, exigindo força e longos períodos longe de casa. No entanto, mulheres pescadoras estão desafiando estereótipos, assumindo todas as etapas do processo e encontrando orgulho e independência econômica.

    Elas participam da contagem dos peixes, da pesca e do tratamento do pescado, quebrando paradigmas com uma determinação feroz. A fala de uma delas ao ser direcionada para a cozinha ilustra essa transformação:

    “Mulher para a cozinha? Eu digo: Quê? Não, eu sou pescadora, então eu vou pra cá… Agora não quero mais saber de cozinha, vou agora é tratar o pirarucu.”

    O manejo sustentável do pirarucu é um exemplo poderoso de como o saber tradicional se alia ao científico. Na comunidade de Santa Teresa, as pescadoras Maria de Socorro, Deusinete, Mariana, Eci e Rita, participantes do acordo Pantaleão, nos mostraram isso na prática.

    Essa força, contudo, vem com sacrifícios profundos. Elas enfrentam o medo das tempestades súbitas nos rios, as “banzetas”, e a angústia de estar longe da família. Uma delas descreve o desespero de receber a notícia de um filho doente enquanto está isolada no rio, incapaz de ajudar. Sua resiliência não apenas sustenta suas famílias, mas redefine a dinâmica social das comunidades ribeirinhas.

    5. O “preço justo” pode fazer o valor do cacau amazônico saltar até 250%

    Da inovação social das mulheres pescadoras, chegamos a uma inovação econômica que também quebra um sistema antigo: o do mercado de cacau, frequentemente dominado por atravessadores que pagam preços baixos.

    A cadeia de valor do cacau na Amazônia, presente em rios como Madeira, Purus, Juruá e Japurá, e no município de Guajará, é marcada por uma complexa estrutura de mercado. A figura dos “atravessadores” conecta os produtores ribeirinhos às indústrias, mas também cria um gargalo na formação de um preço justo. A frustração com um mercado que trata seu produto como commodity é evidente:

    “Eu tenho um preço pré-estabelecido aqui, é commodity. […] O que que eu posso agregar nesse produto para ele ser transformado em valor ou em preço? Ele é de agricultura familiar, é de sistema agroflorestal, tem certificação, rastreabilidade… Aí tu vai somando. Eu pergunto: o mercado paga esse diferencial? Não. E aí as pessoas ficam desestimuladas.”

    No entanto, a discussão não para na queixa; ela aponta para soluções. O Técnico da CEPOTX de Altamira, PA, Jedielso Oliveira, detalhou um modelo concreto de precificação justa, baseado em agregar valor sistematicamente: um bônus de até 70% pela qualidade da fermentação do cacau, +30% por ser orgânico, +50% por conformidade com práticas de ESG (ambiental, social e governança), e valores adicionais por notas sensoriais distintas. Esse caminho mostra que é possível construir um mercado que remunere o cuidado, a qualidade e a sustentabilidade, transformando a frustração em um plano de ação.

    Somados, esses bônus podem representar um aumento de até 250% sobre o preço de mercado. Esse modelo aponta um caminho concreto para uma economia que não apenas extrai, mas que valoriza o cuidado, a técnica e o compromisso socioambiental, transformando um commodity em um produto de altíssimo valor agregado.

    Novos modelos de negócio estão provando que é possível criar um sistema mais justo, que recompensa a qualidade e a sustentabilidade, mudando a lógica de valorização da matéria-prima para o processo.

    A compreensão das cadeias de valor, as pessoas e o futuro da Amazônia

    A bioeconomia amazônica é, em sua essência, feita de pessoas. Suas histórias revelam um universo de inovações, desafios e saberes que os rótulos de “sustentável” ou “produto da floresta” raramente conseguem capturar. Cada uma dessas realidades — do risco invisível na colheita do açaí à sofisticação de um calendário escolar adaptado aos ciclos da natureza — nos mostra que as soluções mais eficazes nascem do conhecimento de quem vive o dia a dia da região.

    Entender essa complexidade é o primeiro passo para construir um futuro verdadeiramente justo e sustentável para a Amazônia. Afinal, depois de conhecer essas histórias, como podemos apoiar uma bioeconomia que valorize não apenas os produtos da floresta, mas principalmente as pessoas que a mantêm viva?

    Em nome da FEA-USP, INPA, CNPq e Fapesp, reforçamos nosso agradecimento a todos os participantes desta pesquisa. Suas vozes e saberes não são apenas dados de pesquisa; eles demonstram que a construção de uma bioeconomia justa e sustentável para a Amazônia depende, antes de tudo, de resolver a equação fundamental do preço justo e da valorização da contribuição necessária das pessoas que vivem na floresta e da floresta.