EAD-5978/2026 Governança Ambiental: Bioeconomia na Amazônia
Coordenação: Prof. Dr. Jacques Marcovitch & Profa. Dra. Maria Sylvia Saes
A governança ambiental é o meio pelo qual são determinadas prioridades para mobilizar recursos, atingir metas, gerar resultados e disseminar impactos relacionados ao bem estar humano e a conservação da natureza.
Abordagem da disciplina
Estudo da evolução do conhecimento existente sobre a bioeconomia inclusiva e suas perspectivas
Conhecer e aplicar a metodologia de análise de cadeias de valor na bioeconomia com foco na geração de emprego, renda e de bem-estar das comunidades produtoras
Quando e onde
Datas: de 24/02 a 27/02/2026, presencialmente na FEA-USP em São Paulo. Horário: Das 08h30 às 12h30 & das 14h00 às 18h30
A Amazônia é frequentemente comparada a um “grande edifício”, mas cientistas tradicionalmente focavam apenas no “térreo”, ignorando os andares superiores. A fauna de insetos que vive na copa das árvores é composta por verdadeiros desconhecidos dos cientistas, e essa fauna é muito diferente daquela que habita a área explorada com mais facilidade pelo homem no nível do solo.
Descubra o que mora lá em cima!
Os mega-projetos de pesquisa Bioinsecta e Biodossel Amazônia, conduzidos pela USP e pelo INPA, assumiram a tarefa de identificar e descrever essa imensa diversidade de insetos em suas várias alturas.
O trabalho é marcado por inovação e desafios pelo ineditismo da abordagem.
Coleta Estratificada: Os pesquisadores utilizam metodologias inéditas, incluindo a coleta em vários níveis da floresta (solo, 8, 16, 24 e 32 metros), e a invenção de uma “cascata de armadilhas” com redes, pendurada em árvores emergentes que podem alcançar 50 a 60 metros de altura.
Sequenciamento de Ponta: Está sendo mobilizado muito conhecimento e tecnologia no campo da genética. O projeto visa sequenciar um trechinho do DNA de algumas centenas de milhares de exemplares de insetos, utilizando a metodologia de sequenciamento de próxima geração (dados maciços). A meta é processar cerca de 320.000 bichos sequenciados.
Resultados Inéditos: Os resultados desse trabalho serão inéditos na literatura mundial e terão um impacto muito importante na nossa compreensão das florestas tropicais.
Este esforço fundamental de conhecer a “imensidão verde” da Amazônia é crucial para a sustentabilidade. Apresentar a biodiversidade e sua importância para o mundo é o primeiro passo para fortalecer as ações de conservação. O que os pesquisadores querem no final é manter a floresta de pé e garantir o uso correto e sustentável desse patrimônio.
Assista ao vídeo “Amazônia Oculta” e acompanhe os cientistas “mergulhando e subindo escadas” na floresta para revelar o conhecimento vital para o futuro da Bioeconomia e da vida na Terra.
Este texto é uma forma de devolutiva e, acima de tudo, um profundo agradecimento a todas as comunidades, produtores, extrativistas, pescadoras e especialistas que generosamente compartilharam seus conhecimentos, histórias e desafios conosco. A pesquisa sobre a bioeconomia na Amazônia, realizada pela FEA-USP e pelo INPA, com o apoio fundamental do CNPq e da Fapesp, só se tornou possível graças a essa colaboração direta e transparente.
Quando pensamos na Amazônia, nossa mente tende a gravitar em torno de imagens grandiosas e, muitas vezes, polarizadas. De um lado, a visão de uma natureza intocada, um santuário de biodiversidade. Do outro, as manchetes alarmantes sobre desmatamento e conflitos. Ambas as visões, embora contenham elementos de verdade, ocultam a complexidade pulsante que existe entre esses extremos.
Por trás de produtos que hoje encontramos em gôndolas de supermercados do mundo todo — como o açaí, o cacau e os peixes de sabor único — existem cadeias de valor repletas de histórias humanas, desafios inesperados e soluções inovadoras que nascem do conhecimento tradicional. Essas cadeias não são linhas retas e anônimas; são redes tecidas por pessoas cujas vidas, saberes e desafios estão intrinsecamente ligados à floresta.
Este artigo se afasta dos rótulos e mergulha nessas narrativas. Extraídas diretamente das vozes de quem vive e trabalha na Amazônia, estas são cinco realidades surpreendentes da bioeconomia regional que vão desafiar e, talvez, transformar a sua percepção sobre o futuro da floresta.
A colheita de açaí é a atividade extrativista mais perigosa da Amazônia
Na Comunidade Quilombola de Guajará-Miri, Joelson Cunha e Samuel Galiza Monteiro nos contaram sobre a transição de sua comunidade, que antes vivia da roça e da produção de carvão, para o açaí como principal fonte de renda e pilar de sua identidade.
A imagem global do açaí é a de um superalimento roxo vibrante, sinônimo de saúde, bem-estar e energia. Mas por trás de cada tigela servida em um café urbano, há uma realidade invisível e arriscada. Para os extrativistas familiares, a colheita do fruto, conhecida como “peconha”, é a atividade mais perigosa da floresta. O trabalho exige escalar açaizeiros de dezenas de metros, até 30 vezes por dia, usando apenas a força do corpo e uma tira amarrada aos pés. É um esforço tão extremo que o corpo precisa ser condicionado desde a infância para suportá-lo, e impossível de ser feito no calor do sol, quando o tronco queima a pele.
Os perigos são normalizados: quedas graves, cortes profundos de terçado e o desgaste físico constante. O risco é tão onipresente que as cicatrizes se tornam uma marca da profissão. Em um estudo para o Tribunal Regional do Trabalho, o sociólogo Manuel Potiguar, do Instituto Pabiru, ouviu uma frase que resume a brutalidade dessa rotina:
“Não existe quem não tenha sofrido acidente, não tem quem não tenha cicatriz que trabalha na cadeia do açaí.”
Essa frase contundente revela o abismo entre a estética da saúde vendida pelo mercado e o custo físico pago por quem está na base da cadeia. O vigor associado ao açaí contrasta diretamente com os perigos enfrentados por aqueles que o colhem.
2. Existe uma escola na Amazônia onde o calendário letivo segue a safra da castanha
Na Comunidade São Francisco de Iratapuru, em Laranjal do Jari/AP, encontramos Maria José. Presidente da associação Bio Rio, sócia da cooperativa Comaru e mãe, ela também está cursando Pedagogia, um detalhe que ilumina sua luta pela transmissão do conhecimento. Sua história reflete a força da organização comunitária: a união das famílias, articulada em torno da cooperativa Comaru e da associação Bio Rio, foi crucial para superar desafios, como a reconstrução da fábrica de beneficiamento após um incêndio, e para estabelecer parcerias duradouras, como o contrato com a Natura.
Enquanto os riscos da colheita do açaí permanecem em grande parte invisíveis, outras comunidades estão ativamente remodelando sistemas públicos para refletir suas realidades. Na comunidade de Iratapuru, no Amapá, a educação não se desconecta da floresta; ela se adapta aos seus ciclos. Lá, o calendário escolar é modificado para se alinhar à safra da castanha-do-pará, principal fonte de renda e pilar cultural da comunidade.
Durante o período de colheita, as aulas são ajustadas — naquele ano, por exemplo, as férias ocorreram de 5 de abril a 7 de maio — para que as famílias possam ir aos castanhais. O objetivo não é o trabalho infantil, mas a transmissão cultural. A mudança foi solicitada pelos próprios pais para que as crianças possam “conhecer a nossa tradição”. Elas aprendem sobre o trabalho que sustenta a comunidade, desde a coleta do ouriço até os perigos inerentes à atividade, como a “subida nas cachoeiras”, uma navegação arriscada que exige canoeiros profissionais.
Essa adaptação é uma demonstração poderosa de como as políticas públicas podem respeitar e integrar os saberes locais, em vez de impor um modelo externo. É o reconhecimento de que a floresta também é uma sala de aula, essencial para a transmissão de uma herança que garante a sobrevivência tanto das pessoas quanto do ecossistema.
3. As abelhas sem ferrão são mais valiosas pela polinização do que pelo mel
Da adaptação de um sistema inteiro como uma escola, passamos para uma inovação que acontece no quintal de casa, mas com um impacto igualmente transformador. A meliponicultura, criação de abelhas nativas sem ferrão, vai muito além da produção de mel. Embora seu mel seja valorizado, o principal benefício para o agricultor é um serviço ecossistêmico invisível: a polinização.
Essas abelhas são polinizadoras eficientes de culturas de alto valor, como o próprio açaí e o cacau, aumentando a produtividade das plantações e, consequentemente, a renda do produtor. Diferente da apicultura tradicional, a criação é segura e acessível, podendo ser feita ao lado de casa por mulheres e crianças. A relação é tão simbiótica que é descrita de forma poética:
“As abelhas adoçam a vida dele para ele poder produzir em uma outra cultura.”
Vista também como uma terapia, a meliponicultura representa um modelo de negócio em que o valor não está apenas no produto extraído, mas no serviço que fortalece todo o sistema produtivo, ajudando a manter a “floresta em pé”.
Mulheres pescadoras estão quebrando tabus no manejo do pirarucu
Assim como a polinização revela o valor oculto das abelhas, um número crescente de mulheres está tornando visível seu papel fundamental em uma das atividades mais emblemáticas da Amazônia. O manejo do pirarucu, o gigante dos rios, é tradicionalmente masculino, exigindo força e longos períodos longe de casa. No entanto, mulheres pescadoras estão desafiando estereótipos, assumindo todas as etapas do processo e encontrando orgulho e independência econômica.
Elas participam da contagem dos peixes, da pesca e do tratamento do pescado, quebrando paradigmas com uma determinação feroz. A fala de uma delas ao ser direcionada para a cozinha ilustra essa transformação:
“Mulher para a cozinha? Eu digo: Quê? Não, eu sou pescadora, então eu vou pra cá… Agora não quero mais saber de cozinha, vou agora é tratar o pirarucu.”
O manejo sustentável do pirarucu é um exemplo poderoso de como o saber tradicional se alia ao científico. Na comunidade de Santa Teresa, as pescadoras Maria de Socorro, Deusinete, Mariana, Eci e Rita, participantes do acordo Pantaleão, nos mostraram isso na prática.
Essa força, contudo, vem com sacrifícios profundos. Elas enfrentam o medo das tempestades súbitas nos rios, as “banzetas”, e a angústia de estar longe da família. Uma delas descreve o desespero de receber a notícia de um filho doente enquanto está isolada no rio, incapaz de ajudar. Sua resiliência não apenas sustenta suas famílias, mas redefine a dinâmica social das comunidades ribeirinhas.
5. O “preço justo” pode fazer o valor do cacau amazônico saltar até 250%
Da inovação social das mulheres pescadoras, chegamos a uma inovação econômica que também quebra um sistema antigo: o do mercado de cacau, frequentemente dominado por atravessadores que pagam preços baixos.
A cadeia de valor do cacau na Amazônia, presente em rios como Madeira, Purus, Juruá e Japurá, e no município de Guajará, é marcada por uma complexa estrutura de mercado. A figura dos “atravessadores” conecta os produtores ribeirinhos às indústrias, mas também cria um gargalo na formação de um preço justo. A frustração com um mercado que trata seu produto como commodity é evidente:
“Eu tenho um preço pré-estabelecido aqui, é commodity. […] O que que eu posso agregar nesse produto para ele ser transformado em valor ou em preço? Ele é de agricultura familiar, é de sistema agroflorestal, tem certificação, rastreabilidade… Aí tu vai somando. Eu pergunto: o mercado paga esse diferencial? Não. E aí as pessoas ficam desestimuladas.”
No entanto, a discussão não para na queixa; ela aponta para soluções. O Técnico da CEPOTX de Altamira, PA, Jedielso Oliveira, detalhou um modelo concreto de precificação justa, baseado em agregar valor sistematicamente: um bônus de até 70% pela qualidade da fermentação do cacau, +30% por ser orgânico, +50% por conformidade com práticas de ESG (ambiental, social e governança), e valores adicionais por notas sensoriais distintas. Esse caminho mostra que é possível construir um mercado que remunere o cuidado, a qualidade e a sustentabilidade, transformando a frustração em um plano de ação.
Somados, esses bônus podem representar um aumento de até 250% sobre o preço de mercado. Esse modelo aponta um caminho concreto para uma economia que não apenas extrai, mas que valoriza o cuidado, a técnica e o compromisso socioambiental, transformando um commodity em um produto de altíssimo valor agregado.
Novos modelos de negócio estão provando que é possível criar um sistema mais justo, que recompensa a qualidade e a sustentabilidade, mudando a lógica de valorização da matéria-prima para o processo.
A compreensão das cadeias de valor, as pessoas e o futuro da Amazônia
A bioeconomia amazônica é, em sua essência, feita de pessoas. Suas histórias revelam um universo de inovações, desafios e saberes que os rótulos de “sustentável” ou “produto da floresta” raramente conseguem capturar. Cada uma dessas realidades — do risco invisível na colheita do açaí à sofisticação de um calendário escolar adaptado aos ciclos da natureza — nos mostra que as soluções mais eficazes nascem do conhecimento de quem vive o dia a dia da região.
Entender essa complexidade é o primeiro passo para construir um futuro verdadeiramente justo e sustentável para a Amazônia. Afinal, depois de conhecer essas histórias, como podemos apoiar uma bioeconomia que valorize não apenas os produtos da floresta, mas principalmente as pessoas que a mantêm viva?
Em nome da FEA-USP, INPA, CNPq e Fapesp, reforçamos nosso agradecimento a todos os participantes desta pesquisa. Suas vozes e saberes não são apenas dados de pesquisa; eles demonstram que a construção de uma bioeconomia justa e sustentável para a Amazônia depende, antes de tudo, de resolver a equação fundamental do preço justo e da valorização da contribuição necessária das pessoas que vivem na floresta e da floresta.
São Paulo, Edusp, 2025. Christiane Taubira (coord.), Camila Perruso e Djamila Delannon (orgs.)
Contribuição da USP para a reflexão em torno dos temas tratados na COP-30, trigésima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, um dos mais importantes fóruns mundiais de discussões e de tomada de decisões acerca das medidas e ações voltadas à sustentabilidade e às mudanças climáticas.
Sinopse
Natural da Guiana Francesa – amazônida, negra e créole, como ela mesma se define –, Christiane Taubira, antiga parlamentar e ministra da Justiça da França, valeu-se de sua extraordinária experiência para conduzir, entre 2024 e 2025, atividades de pesquisa sobre a Amazônia e a pluralidade e diversidade de suas sociedades. Na direção da Cátedra José Bonifácio, congregou especialistas do Brasil e do exterior e liderou jovens pesquisadores de programas de pós-graduação da universidade para a reflexão em torno do destino reservado às populações que compartilham esse espaço comum. A obra constitui uma das contribuições da USP para a reflexão em torno dos temas tratados na COP-30, realizada em 2025, quando o Brasil sediará a trigésima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, um dos mais importantes fóruns mundiais de discussões e de tomada de decisões acerca das medidas e ações voltadas à sustentabilidade e às mudanças climáticas.
A publicação da FAO, “Indicadores para Bioeconomia Sustentável: Rumo à Construção de uma Estrutura de Monitoramento e Avaliação”, junto com seu banco de dados, traz uma contribuição importante para analisar o impacto das cadeias de valor da bioeconomia na Amazônia.
Seu conteúdo apresenta indicadores úteis para identificar prioridades de ação, além de conceber e propor políticas públicas. Suas metricas estão também alinhadas com as metas dos objetivos globais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2030).
O conteúdo oferece um relato do pesquisador após recente missão da delegação da Academia Brasileira de Ciência (ABC) à China, seguida de uma sessão interativa com comentários dos participantes. Um conteúdo que sublinha a conexão da pesquisa com os desafios societais e a necessidade de prioridades para a cooperação científica Brasil-China.
Participaram do debate Expositor: Adalberto L. Val – INPA/ABC João Saveia – Universidade Católica de Angola Marina Caldeira – FMUSP Justin Axelberg – Projeto Métricas Glaucius Oliva – IFSC/ABC Déborah Araújo – Governo do estado de São Paulo
Carlos Teles, ou Cacá, é uma liderança da comunidade tradicional de Boa Vista do Acará e morador da comunidade Quilombola de Guajará-Miri nos arredores de Belém-PA. Ele é agricultor e produtor de Açaí.
O objetivo da pesquisa é identificar fatores críticos para elevar a competitividade de cadeias produtivas com base na biodiversidade no Estado do Amazonas, com alto potencial de consumo no Estado de São Paulo.
Serão analisados localmente os componentes das cadeias produtivas e identificados os fatores inibidores e propulsores de elevado desempenho para propor soluçõesque respondam aos problemas identificados.
Cadeias de valor com base na biodiversidade para geração de emprego e renda nos estados do Amazonas e São Paulo
O estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva-exploratória, e se fundamenta nos princípios de pesquisa-ação. O método utilizado será o estudo de caso múltiplos, considerando quatro unidades de análise – as cadeias do pirarucu, açaí, cacau e castanha do Brasil.
Ao término da pesquisa, serão priorizadas recomendações de políticas públicas nas esferas da geração de empregos e renda, da segurança alimentar e da educação para a cidadania. O conhecimento construído, que inclui a prospectiva tecnológica, será disseminado por meio de conteúdos impressos (livro e artigos) e digitais (site e vídeos).
A sistematização dos casos permitirá a identificação de práticas empresariais atuais e inovadoras, para a proposição de modelos replicáveis em outras cadeias setoriais.
Estes modelos incluirão métricas de monitoramento da governança nos componentes das cadeias produtivas e sua articulação.
Com o intuito de obter resultados e gerar impactos, os agentes de entidades privadas e públicas serão engajados desde o início dos estudos por intermédio de um conselho de orientação, no delineamento, realização, disseminação e monitoramento dos resultados empíricos.
Agência FAPESP – Luciana Constantino – O acelerado crescimento da degradação da Amazônia brasileira, causado principalmente por incêndios, ofuscou a expressiva queda do desmatamento entre 2022 e 2024. Esse “saldo negativo” na proteção do bioma compromete as metas internacionais de combate à crise climática assumidas pelo país, que neste ano é sede da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30).
O alerta vem de um artigo publicado na revista Global Change Biology por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e instituições do Reino Unido e dos Estados Unidos. Enquanto o desmatamento remove totalmente a cobertura de vegetação nativa, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo (por exemplo, por meio do corte seletivo de árvores).
Segundo o estudo, os alertas de degradação na Amazônia subiram 44% de 2023 para 2024 – 163% em relação a 2022. Isso significa que somente no ano passado 25.023 quilômetros quadrados (km2) de floresta foram degradados, sendo cerca de 66% por incêndios florestais. Trata-se de uma área maior do que o Estado de Sergipe.
No sentido oposto, o desmatamento caiu, respectivamente, 27,5% e 54,2%, representando o menor incremento em dez anos. Foram 5.816 km2 desmatados no período referente a 2024, de acordo com dados do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Inpe.
“A degradação é um processo mais difícil de ser identificado do que o desmatamento porque ocorre enquanto ainda existe a floresta em pé. É decorrente principalmente do fogo, que nos últimos dois anos foi agravado pelo cenário de seca na Amazônia. Há ainda o corte seletivo de árvores e o efeito de borda. Tudo isso diminui os serviços ecossistêmicos prestados por essas florestas. O entendimento desse dado contribui para a formulação de políticas públicas”, diz Guilherme Mataveli, pós-doutorando na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe.
Entre 2023 e 2024, uma forte seca atingiu a Amazônia, com déficits de precipitação de 50 a 100 milímetros ao mês; aumento de temperatura acima de 3 °C e atraso na estação chuvosa, deixando os rios em níveis mínimos. Com isso, o bioma registrou no ano passado o maior número de focos de calor desde 2007 – foram 140.328 no total.
Primeiro autor do artigo, Mataveli faz parte do laboratório Tropical Ecosystems and Environmental Sciences (Trees), liderado pelos pesquisadores Luiz Aragão, que também assina o trabalho, e Liana Anderson.
Para Aragão, a importância do estudo foi demonstrar que hoje os satélites – tecnologias espaciais críticas para o país e utilizadas no sistema de monitoramento do Inpe – já permitem a detecção dos processos de degradação. “Esses processos vinham comprometendo a integridade de nossas florestas de forma silenciosa. As tecnologias atualmente conferem não só capacidade de monitorar os eventos, reportar as emissões de carbono associadas, seus impactos no ambiente, na população e no clima planetário, como também permitem o planejamento estratégico para uma gestão territorial sustentável e de baixo carbono”, diz o pesquisador do Inpe e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).
E completa: “A liderança do Brasil no cenário internacional em relação a ações de combate às mudanças climáticas e à perda da biodiversidade depende de respostas eficazes à degradação florestal. Reportar as emissões associadas a esses processos é um caminho sem volta dentro dos Inventários Nacionais de Gases de Efeito Estufa. Portanto, a intensificação de medidas de controle, com a implantação de políticas consistentes que abordem esse processo, torna-se uma prioridade nacional”.
O Brasil foi o primeiro país a entregar à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, sigla para Nationally Determined Contributions). Nela, assume o compromisso de reduzir de 59% a 67% as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 em comparação com os níveis de 2005 (850 milhões a 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente).
As NDCs são as metas de cada país para reduzir a emissão de gases estufa e evitar que o aumento médio da temperatura global ultrapasse 1,5 °C, conforme estabelecido no Acordo de Paris. Elas devem ser revisadas e atualizadas até a COP30, que acontece em novembro, em Belém (PA).
Impacto
Embora não remova totalmente a vegetação nativa, a degradação degenera a floresta que “sobra”, afetando a biodiversidade e reduzindo a capacidade de fornecer serviços essenciais, como a captura de carbono e a regulação do ciclo da água, funções vitais para a resiliência do ecossistema.
Pesquisas anteriores já mostraram que quase 40% das florestas em pé na Amazônia são degradadas por fatores como incêndios, efeito de borda, extração ilegal de madeira e eventos extremos de seca, enfatizando ainda mais a escala e a importância do problema. Nesse cenário, as emissões de carbono da perda gradual de vegetação – entre 50 milhões de toneladas e 200 milhões de toneladas ao ano – foram equivalentes ou até maiores do que as por desmatamento – entre 60 milhões de toneladas e 210 milhões de toneladas/ano (leia mais em: agencia.fapesp.br/40568).
No artigo publicado agora, os cientistas sugerem que sejam adotados esforços para a melhoria do manejo de incêndios, juntamente com projetos de restauração e reflorestamento em larga escala. Outro caminho é uma integração dessas estratégias com mercados de crédito de carbono, criando incentivos financeiros para que proprietários de terras, empresas e comunidades locais adotem práticas sustentáveis.
Eles apontam ainda desafios no aprimoramento de rastreio e quantificação da degradação, além da criação de mecanismos para responsabilizar responsáveis.
O estudo teve apoio da FAPESP por meio do Centro de Pesquisa e Inovação de Gases de Efeito Estufa (RCGI); de um Projeto Temático liderado pelo pesquisador Paulo Artaxo, do Centro de Estudos de Sustentabilidade Amazônica da Universidade de São Paulo (USP); e de bolsas concedidas a Mataveli (19/25701-8 e 23/03206-0) e a Lucas Maure, do Inpe (24/06641-2). Artaxo e Maure também são autores do trabalho.