“A Complementaridade Entre os Saberes” nos leva a refletir sobre a importância de quebrar os silos acadêmicos e promover a colaboração entre diferentes áreas do conhecimento. Ao fazer isso, não apenas enriquecemos nosso entendimento, mas também abrimos portas para um futuro mais inovador e sustentável.
Essa entrevista oferece uma visão inspiradora sobre como a interdisciplinaridade pode ser a chave para desvendar novos horizontes de descoberta e inovação. A FAPESP, ao destacar essa abordagem, reforça seu compromisso com o avanço do conhecimento e o impacto positivo na sociedade.
Manuela Carneiro da Cunha é uma renomada antropóloga e linguista brasileira, conhecida por suas significativas contribuições nos campos da antropologia e dos estudos linguísticos, particularmente focando em questões relacionadas aos povos indígenas no Brasil. Nascida em São Paulo, em 1942, ela se destaca como uma acadêmica engajada e defensora incansável dos direitos dos povos indígenas, tornando-se uma referência respeitada tanto nacional quanto internacionalmente.
Ao longo de sua carreira, Manuela Carneiro da Cunha desempenhou um papel crucial na promoção do diálogo interdisciplinar entre a antropologia e a linguística, abordando temas como a diversidade cultural, as relações sociedade-natureza e a preservação das línguas indígenas. Seu trabalho não apenas influenciou o entendimento acadêmico dessas questões, mas também contribuiu para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a proteção e valorização da rica diversidade cultural e linguística presente nos povos indígenas brasileiros. A trajetória de Manuela Carneiro da Cunha reflete não apenas sua excelência acadêmica, mas também seu compromisso ético e social em prol da construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa com as diferentes culturas que compõem o Brasil.
Em artigo publicado no Journal Ecological Economics Ribeiro, et al., discutem o potencial dos mercados da bioeconomia baseados no uso de espécies nativas no Brasil. Segundo os autores, os mercados da biodiversidade são bastante promissores, mas são acompanhados de controvérsias.
O artigo mapeia a utilização de espécies nativas em onze setores industriais: alimentos, bebidas, têxteis, vestuário, couro, madeira, papel e celulose, biocombustíveis, produtos farmoquímicos, borracha e móveis. Os resultados apontam para a imensa distância entre o potencial de exportações (US$ 50 bilhões) e sua consolidação (apenas 1% desse valor). Outro desafio se encontra na distância entre as regiões de origem dos produtos da biodiversidade e os locais onde são obtidas as maiores receitas de sua comercialização.
Como recomendações, os autores sugerem que a responsabilidade pela utilização sustentável da biodiversidade recaia predominantemente sobre os setores dominados por grandes corporações, principalmente os setores farmoquímico e de biocombustíveis. Segundo eles, tais setores teriam o potencial de liderar a transição para práticas de biodiversidade responsáveis e sustentáveis no Brasil.
As zonas florestadas correspondem aos municípios com cobertura vegetal original majoritariamente florestal. Já os municípios da zona florestal sob pressão possuem grande cobertura florestal, porém estão sob processo acelerado de desmatamento recente.
A zona desmatada corresponde aos municípios que já perderam mais de 70% da sua floresta. Finalmente, a Zona Urbana foi definida com os critérios usados pelo IBGE.
Para cada macrozona o estudo propõe relevantes prioridades, mas carece de indicadores relativos à implementação das ações propostas. Uma importante contribuição para pesquisadores dedicados ao estudo da bioeconomia na Amazônia.
“A Amazônia tem sofrido cada vez mais com a ameaça do crime e da violência que avança de forma descontrolada. Se o desmatamento desenfreado e a exploração ilegal de minérios são variáveis presentes há décadas na região, que também convive diariamente com a violência decorrente dos conflitos fundiários, a disseminação de facções criminosas que atuam especialmente no narcotráfico é um fenômeno que se consolidou há cerca de uma década, gerando crescimento dos homicídios e ameaçando ainda mais o modo de vida dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas”
Lançado em 14 de novembro de 2023, a publicação consolida uma série de iniciativas, estudos e projetos que ajudam a entender os desafios da região amazônica.
Karina Ninni | Agência FAPESP – Existem áreas pouco investigadas cientificamente na Amazônia brasileira, por diversos motivos. Um artigo publicado na revista Current Biology por cientistas do mundo todo reunidos no Consórcio Synergize revela não só as áreas, mas também os fatores que determinam esses gaps de investigação ecológica, abrindo possibilidades para orientar pontualmente o planejamento de novos investimentos em pesquisa na região.
Entre 15% e 18% das áreas com biodiversidade mais negligenciadas na Amazônia brasileira também mostram alta suscetibilidade às mudanças climáticas até 2050
O trabalho utilizou informações de 7.694 locais onde ocorreram investigações ecológicas para avaliar como a logística e a influência antrópica nas florestas explicaram a chance de diferentes regiões da Amazônia receberem pesquisas. O período analisado foi de 2010 a 2020, abrangendo estudos de nove grupos de organismos: invertebrados bentônicos (que habitam o fundo dos oceanos, estuários, rios e lagos ou vivem associados a substratos como sedimentos, rochas, troncos e plantas aquáticas), heterópteros, odonatas (grupo popularmente conhecido como “zigue-zague” ou “lavadeira” e que também inclui as libélulas), peixes, macrófitas, aves, vegetação lenhosa, formigas e besouros rola-bosta.
“O consórcio reuniu pessoas que contribuíram com bancos de dados sobre inventários padronizados e estudos que apresentassem esforços amostrais similares. Capturamos informação sobre três grandes grupos representativos da biodiversidade da Amazônia: animais vertebrados, invertebrados e a flora de florestas de terra firme, florestas alagáveis e de ambientes aquáticos (igarapés, rios e lagos). Este é o primeiro trabalho que o grupo publica”, explica o biólogo Mario Ribeiro de Moura, do Instituto de Biologia da Universidade de Campinas (Unicamp), um dos autores do artigo e integrante do consórcio.
As descobertas indicam que 15% a 18% das áreas com biodiversidade mais negligenciadas na Amazônia brasileira também mostram alta suscetibilidade às mudanças climáticas até 2050. A região em que há menor volume de pesquisas coincide com parte das áreas ameaçadas nas proximidades do arco do desflorestamento, região que contorna os limites sul, sudeste e leste da Amazônia e se concentra em parte dos Estados do Acre, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins.
Os dados revelam ainda que as maiores lacunas na pesquisa ecológica na Amazônia aparecem em ambientes de terra firme. “Isso é esperado e provavelmente reflete o papel que a rede de vias navegáveis da região tem em facilitar o acesso a florestas alagáveis (várzeas e igapós) e ambientes aquáticos.” Não por acaso, os cenários menos pessimistas aparecem ao longo dos rios, no nordeste do Pará e de Roraima, no sudeste do Acre e no norte de Rondônia. “Nesses locais teremos impactos menores das mudanças climáticas para o futuro, e o conhecimento que temos sobre as comunidades de espécies deles é melhor.”
O estudo foi apoiado pela FAPESP por meio de duas Bolsas de Pós-Doutorado no Brasil. Uma das Bolsas foi concedida a Raquel de Carvalho e outra a Angélica Faria de Resende. Moura foi apoiado no âmbito de um Auxílio Jovens Pesquisadores e uma Bolsa no Brasil.
Fatores impactantes
Os cientistas mapearam as áreas mais negligenciadas em pesquisa ecológica na Amazônia e a esse mapa sobrepuseram as áreas que mais seriam afetadas pelas mudanças climáticas, segundo uma métrica que reflete sua intensidade. Para os dados sobre desmatamento e degradação, usaram um estudo recente publicado na Science sobre os drivers de desmatamento na Amazônia. O cruzamento de dados revela que a pesquisa ecológica na Amazônia ocorre com mais frequência em ambientes já desmatados do que naqueles em que se espera desmatamento nas próximas três décadas.
“Estamos em ritmo de mudanças ambientais aceleradas, incluindo mudanças climáticas e transformações das paisagens. Para entendermos como essas mudanças afetam a biodiversidade, é preciso saber o que havia em determinada região antes que essas mudanças aconteçam. E a Amazônia é um dos últimos resguardos de biodiversidade tropical significativamente preservada, sendo essencial para compreender o efeito isolado de mudanças climáticas e destruição de hábitats sobre a biodiversidade. O estudo mostra áreas com alto risco de sofrerem modificações ambientais nos próximos anos e que ainda são desconhecidas para nós. Sem o conhecimento ecológico adequado, não será possível saber o que está mudando ou o que está sendo perdido,” diz Moura.
No que diz respeito à logística, a acessibilidade e a distância de instalações de pesquisa são importantes preditores da probabilidade da realização de trabalhos científicos. “O acesso é uma faca de dois gumes e a região do arco do desflorestamento comprova. A facilidade de acesso permite que os pesquisadores alcancem mais áreas, por isso há uma parte desse imenso arco sobre a qual já se sabe bastante. Mas, permite que os desmatadores e outros com piores intenções também cheguem lá. E ainda há pouca informação sobre as áreas ameaçadas que se localizam na fronteira do arco do desflorestamento”, afirma Moura.
O acesso aumentou com a proximidade de transporte e de instalações de pesquisa para todos os organismos de terra firme e para a maioria dos representantes de florestas alagáveis e hábitats aquáticos. “A duração da estação seca determina a facilidade de acesso por hidrovias. Nas florestas alagáveis, quanto menor a estação seca, maior é a possibilidade de acesso fluvial, o que contribui para ocorrências de pesquisas. Já nas áreas de terra firme, a estação seca mais pronunciada facilita o acesso terrestre, há menos lama envolvida e ausência de trechos alagados.”
A degradação florestal e a posse da terra também mostraram um efeito modesto, mas de importância consistente, em todos os grupos de organismos estudados na região. Esses dois fatores afetaram a pesquisa ecológica, com a probabilidade de pesquisa diminuindo ligeiramente em áreas degradadas e Terras Indígenas, mas aumentando em Unidades de Conservação. Resumindo: faz-se menos pesquisa em áreas degradadas e mais pesquisa em Unidades de Conservação do que em Terras Indígenas.
“É mais difícil viabilizar o acesso a comunidades indígenas ou talvez faltem mecanismos administrativos que conectem pesquisadores com órgãos que regulam o acesso às Terras Indígenas e com as próprias comunidades indígenas. Precisamos melhorar a integração entre as partes envolvidas e, sobretudo, envolver as comunidades locais no processo de geração de conhecimento. Nas Unidades de Conservação a quantidade de pesquisa é bem maior que nas Terras Indígenas, embora ambas sejam um tipo de área protegida”, diz o pesquisador.
Na avaliação de Raquel de Carvalho, essa distribuição é problemática, considerando que as terras indígenas ocupam cerca de 23% da Amazônia brasileira. “Ao mesmo tempo, várias terras indígenas são ainda as áreas mais preservadas do bioma amazônico. Seria muito interessante ter pesquisas nessas áreas”, ela diz.
Novas estratégias
Segundo Moura, a floresta amazônica está sub-representada em bancos de dados globais usados como base para estudos sobre biodiversidade. “Alertamos para a necessidade de integrar as informações que temos sobre a Amazônia aos bancos de dados globais e citamos alguns projetos com os quais o Consórcio Synergize pode contribuir de forma mais intensiva. As informações reunidas para o trabalho atendem, em grande parte, aos requisitos de outros bancos de dados existentes, sendo úteis para melhorar a representatividade da biodiversidade amazônica em novos estudos sobre mudanças globais. A partir deste trabalho, o consórcio visa se estabelecer como uma rede de colaboração importante para outros grupos de pesquisa interessados em atuar com mudanças ambientais na Amazônia.” O Synergize é coordenado por Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, e Filipe França, da Universidade de Bristol, com orientação de Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.
Para o biólogo, os resultados do grupo deverão servir para orientar o estabelecimento de novas estratégias de financiamento dentro da Amazônia. “Sabendo onde estão as lacunas, os investimentos para conservação e a pesquisa da Amazônia podem mirar esses locais ou dar maior peso para as propostas que contemplem pesquisas nesses locais em futuras chamadas e editais. As políticas públicas podem levar esses resultados em consideração no planejamento de novas ações e programas de monitoramento e inventariamento da biodiversidade amazônica.”
A bioeconomia apresenta oportunidades e desafios significativos para o desenvolvimento sustentável do Brasil e do mundo. No Brasil, a região amazônica, por exemplo, abriga uma rica biodiversidade, recursos naturais valiosos e comunidades tradicionais, oferecendo um imenso potencial para a criação de uma economia baseada na utilização sustentável de seus recursos.
As oportunidades para o desenvolvimento sustentável relacionadas à promoção da bioeconomia possuem uma abordagem que valoriza a conservação da biodiversidade, a inclusão social e o uso responsável dos recursos naturais. Ela contribui para a redução do desmatamento, a mitigação das mudanças climáticas e o desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis, podendo fortalecer a economia local, como a região amazônica, e também a economia do país como um todo.
Neste episódio, Ilana Benchimol Minev, presidente do Conselho de Administração da Bemol, conversa com Jacques Marcovitch, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP).Este episódio foi gravado via internet em home office. As opiniões expressas não refletem necessariamente as do IBGC. Este episódio foi gravado via internet em home office.
Um novo ecossistema de negócios está sendo pensado e desenvolvido na Amazônia com o objetivo de preservar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento socioeconômico da região, gerando emprego, renda e bem-estar para a população local. Esse ecossistema faz parte de uma nova economia baseada em soluções sustentáveis que têm como foco principal a natureza. Essa abordagem considera uma visão integrada que engloba pessoas, infraestrutura, bioeconomia, agropecuária sustentável, ordenamento territorial e soluções sustentáveis.
Para alcançar esse objetivo, é necessário ter uma agenda de negócios que compreenda os riscos, busque oportunidades e desenvolva uma infraestrutura adequada para sustentar o crescimento desse ecossistema. Além disso, é fundamental envolver lideranças e conselheiros para garantir o engajamento nesse processo. Mas como está o panorama atual da região? E como podemos desenvolver todas essas iniciativas? Neste episódio, Vanessa Pinsky, consultora especialista em ESG e membro da comissão de sustentabilidade do IBGC, e Bruno Aranha, especialista em sustentabilidade, irão responder a essas questões.
Artigo publicado no Journal Sustainability defende que a bioeconomia deve incentivar atividades econômicas que preservem a biodiversidade e fortaleçam as comunidades locais, promovendo seu bem-estar e diversidade cultural. Seus autores, pesquisadores associados ao Projeto Bioeconomia, propõem um método e indicadores de avaliação.
Para uma validação inicial da abordagem, o método foi aplicado à cadeia de valor do pirarucu (Arapaima gigas) na Amazônia brasileira. O estudo mostra que as pescarias gerenciadas são viáveis e trazem benefícios socioeconômicos, mas ainda existem desafios em relação à renda complementar, atratividade para as comunidades locais e falhas institucionais.
Saes, M. S. M., Saes, B. M., Feitosa, E. R. M., Poschen, P., Val, A. L., & Marcovitch, J. (2023). When Do Supply Chains Strengthen Biological and Cultural Diversity? Methods and Indicators for the Socio-Biodiversity Bioeconomy. Sustainability, 15(10), 8053. https://www.mdpi.com/2071-1050/15/10/8053
Na sua apresentação no Frontiers Forum Live 2023, o Professor Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, explicou por meio de evidências, os resultados de sua pesquisa, selecionada como representante brasileira do premio internacional Frontiers Planet.
Por meio da sua pesquisa, o professor Carlos Peres e a sua equipe demonstraram que os programas de conservação de base comunitária na Amazônia não só beneficiam os ecossistemas naturais como também melhoram os meios de subsistência das pessoas que vivem nas áreas protegidas. Esta capacitação das comunidades locais, em que todos ganham, pode ser alargada a toda a planície amazônica e realça o valor da proteção e reforça os argumentos em favor da ocupação humana responsável reservas florestais, como fator decisivo para a conservação.
Saiba mais sobre o Prêmio Frontiers Planet: https://www.frontiersplanetprize.org/
O Frontiers Forum Live apresenta soluções científicas para uma vida saudável num planeta saudável. O evento realiza-se anualmente em Montreux, na Suíça, e há sessões virtuais ao longo do ano.